1.29.2012

sometimes I do, sometimes I don't

in London, Aug 2011

Subverto a ordem, a causa, o objecto

A história repete-se por ciclos. O que foi dito num ciclo pode ser transcrito para descrever o ciclo seguinte, mudando os locais e os nomes dos intervenientes.
Posto isto, a ontogenia recapitula a filogenia.
E as palavras gastam-se, gastaram-se. E, ao relê-las, o ciclo avança e termina mais depressa.
Embora os ciclos não sejam lineares e, por preguiça, eu goste de saltar partes das estórias e alterar a ordem natural. Escrevo e omito, revisito, revelo o omitido num desenquadramento temporal que me é caro.
Declaro paixões não carnais que poderão parece-lo. Declaro apodrecimentos sensoriais que são, no fundo, carnais. Subverto a ordem, a causa, o objecto. Tudo o que eu escrevo não deverá nunca ser levado à letra.



1.14.2012

Let's drain the seas


 Chicago 2010, in the middle of a storm

"I tell you how I feel, but you don't care
I say tell me the truth, but you don't dare
You say love is a hell you cannot bear
And I say gimme mine back and then go there - for all I care


I have never been so insulted in all my life
I COULD SWALLOW THE SEAS TO WASH DOWN ALL THIS PRIDE"


Fiona Apple - Sleep to dream

1.09.2012

Guardo a caixa das memórias debaixo da cama, com o caixão da gaivota primordial.
Não fiz balanços de ano velho ou do final de uma idade. 
Não fiz resoluções de ano novo ou do início de uma idade.
Não escrevo aqui há tanto tempo, porque tudo tem tido um peso maior. A dor a sério não deve ser partilhada assim e o prazer a sério também não. 
Um rol de futilidades tem lugar, das botas às viagens internas ou externas. O que fica agarrado à sola das botas e o que é deixado nas asas do avião, é outra história que não tem lugar aqui. 
As gaivotas, essas sim, podem ficar aqui guardadas. Porque as gaivotas são sempre substituídas, ou acabam por definhar. As gaivotas voam, arriscaria dizer que migram, e acho que posso dizê-lo, percebo de cérebros, não de animais que se alojam no estômago e comem peixe putrefacto.

Devia estar a explicar como passei 3 anos a brincar ao telefone estragado, como me pagam para isso e como o faço mesmo quando não me pagam para tal. Aliás, como faço isso comigo própria. Como tento distorcer a realidade para me agradar mais, como tento ver o que não está lá. Quando acabar de escrever esse capítulo, deixo de brincar ao telefone estragado. Talvez deixe mesmo de usar o telefone e pronto, resolvo uma série de problemas que a reprodução serial me criou em série.

Vou voltar a ser racional, a ter medo de cair e me magoar, talvez isso seja o mais adaptativo.Vou voltar à Ciência e ao mundo aparte, sem artifícios ou metáforas ou inferências sobre o que não se vê. Vou só acreditar na brutalidade das palavras, esquecer que fui treinada para lidar com dados comportamentais e não relatos de introspecção. Wundt talvez estivesse certo. Desisto de tentar compreender comportamentos que contradizem relatos verbais.  

E isso vai tudo fazer-me tão fria. Como se fosse possível sê-lo muito mais. 

12.17.2011

Esta ilusão de querer matar todas as gaivotas tem de acabar.
Elas não morrem, algumas suicidam-se, é certo, mas depois há sempre gaivotas bebés, como aquelas do cais do sodré, há muito tempo... nem devia lembrar-me destas coisas.
O conceito de gaivotas bebés é ridículo, mas toda esta situação é ridícula. (as cartas, todas as cartas, também o eram, supostamente)

Se não as consigo matar, fugir delas talvez seja o melhor. Terá sido por isso que fui tão feliz nas margens do Mississippi? Fugi, não para o habitual Big Sur, mas para o interior, onde não oiço gaivotas e os cucos ainda não chegaram. Serão dois dias de fuga suficientes para calar as gaivotas, já que não as consigo matar?

12.11.2011

Acho que hoje mataste a última gaivota.
E já não doeu.
Estava moribunda há muito,
tentava agarrar-se à vida que não era dela,
respirava nas entrelinhas,
enterrando-se mais e mais no estômago que a alimentava. (de há algum tempo)

(as coisas mudam, alteram-se, a história repete-se, hiperbolicamente, mas, de facto, as gaivotas já morreram, já não fazem sentido; é mais ou menos como um artigo que é rejeitado e revisto tantas vezes que, na última revisão já não é o que tinha sido criado por nós, o que tinha sido sentido, e já não acreditamos mais na sua aceitação, porém, a rejeição já certa deixou de fazer doer, porque o artigo já não somos nós)